Essa deveria ser a sua primeira viagem no Brasil
10 dias no Amazonas: cachoeiras, Anavilhanas, selva e ribeirinhos. Um roteiro dia a dia, com dicas práticas e o que eu faria diferente.

Se você mora no Brasil, tem condições de viajar pelo mundo e nunca foi ao Amazonas, está perdendo uma das maiores riquezas e belezas que temos. Viajar dentro do Brasil pode sair mais caro do que outros destinos da América Latina, mas te garanto: vale cada centavo.
Por que ir?!
Diferente de outros destinos, aqui há tantas atividades diversas que nenhum dia é igual ao outro: trilhas, cachoeiras, passeio de barco, hidrobike no rio, contato com nativos, animais do próprio bioma, pesca de piranha, banho de lua, acampamento na floresta dormindo em rede. É o roteiro ideal para pessoas hiperativas e amantes da natureza.
Quando ir?
No Amazonas o ano se divide em apenas duas estações, definidas pelo volume de chuvas e pelo nível dos rios: o inverno (época chuvosa) e o verão (época mais seca).
Fui em uma das melhores épocas: junho, na transição do inverno para o verão. Consegui aproveitar todos os passeios sem chuva e, por ser um período que antecede as férias escolares, o número de turistas não foi tão grande.
Em junho também acontece o Festival de Parintins, a maior festa folclórica a céu aberto do mundo. Não fiquei para o festival, mas consegui assistir de graça a alguns dos ensaios abertos ao público. Para quem gosta de festa com muita cor, figurino e coreografia, indico pesquisar mais a respeito, já que as vagas são EXTREMAMENTE CONCORRIDAS.
Antes de ir
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Apesar de amar passar horas montando roteiros personalizados, viajar para regiões remotas exige contratar uma agência credenciada. Sem isso, você paga o preço alto de um passeio privativo, abre mão da segurança e perde a melhor parte: fazer novas amizades num lugar tão propício a isso. Pesquise agências, avaliações, tudo!
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Tome a vacina contra a febre amarela, que é recomendada para quem vai à região amazônica. Ela deve ser tomada pelo menos 10 dias antes da viagem, então não deixe para a última hora;
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Não vá com mala de rodinhas, invista em um mochilão e uma mochila pequena para os passeios que vão ter ao longo dos dias;
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Muito repelente e protetor solar;
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Leve uma blusa ou jaqueta apenas para o voo, pois o ar-condicionado do avião tende a ser forte para pessoas sensíveis ao frio. No destino em si, não vale a pena levar nada de frio;
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Leve roupa de banho de coloração escura ou estampada, nada de coisas claras, pois a cor do rio pode manchar as suas roupas;
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Vá com um tênis confortável para fazer trilhas na mata;
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Não vi necessidade de snacks na mochila, pois todos os almoços são bem servidos;
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Garrafinha de água para os passeios;
O que fazer em Manaus
Deixe um dia livre para as três paradas que recomendo:
- Teatro Amazonas: parada obrigatória, de uma beleza que não cabe em palavras. A visitação é gratuita!
- Mercado Municipal Adolpho Lisboa: o comércio local mais famoso. Confesso que não comprei nada, porque achei todas as lembrancinhas que queria durante os passeios.
- Museu da Amazônia (MUSA): o único que não consegui ver, por não ter reservado um dia inteiro. Se puder, faça os três.
O que fazer em Presidente Figueiredo
Presidente Figueiredo é conhecida como a Terra das Cachoeiras, e vale muito a pena reservar 2 dias do roteiro para ela. Além de ampliar a variedade de passeios, serve de aquecimento para o que vem pela frente: para chegar a alguns atrativos, é preciso encarar uma pequena trilha pela mata, um gostinho do que te espera!
Nesses dois dias, conheci:
- Caverna Refúgio do Maroaga e Gruta da Judéia
- Cachoeira de Iracema e Cachoeira das Araras
- Lagoa Paraíso Azul e Lagoa Cristalina
- Rio Vermelho
Dica: antes de encerrar o dia, peça ao guia para parar numa lanchonete que tenha X-caboclinho, lanche regional considerado Patrimônio Cultural Imaterial de Manaus, feito com um ingrediente único da região: a casca de tucumã.
Ao entardecer não há muito o que fazer na cidade. A estrutura de hotéis e restaurantes é bem simples e carece de opções mais elaboradas, mas existe um centrinho noturno com alguns botecos para comer.
O que fazer em Novo Airão
Novo Airão é a porta de entrada para o Arquipélago de Anavilhanas, o maior arquipélago fluvial do mundo, em pleno Rio Negro. Aqui o ritmo muda: a cidade é pequena e o passeio acontece quase todo na água. Fiquei 2 dias, e recomendo o mesmo: um só passaria correndo.
Primeiro dia: no caminho, a van fez uma parada na Vila de Paricatuba, com um pedacinho da história da região que vale a pausa. Depois:
- Botos-cor-de-rosa: a observação é feita bem de perto, seguida de um almoço regional com o famoso tambaqui de banda.
- Comunidade ribeirinha: visita para entender o turismo de base comunitária, como é feito o artesanato e alguns instrumentos de caça que usavam, como a zarabatana.
- Anavilhanas: navegação pelo labirinto de igapós e lagos, fechando com um banho no Rio Negro ao pôr do sol.
Segundo dia:
- Nascer do sol no Rio Negro: pedalar numa hidrobike enquanto o sol nasce;
- Canoagem e trilha na floresta primária: passeio de barco pelos igapós e, depois, uma pequena trilha até encontrar a majestosa Sumaúma, uma árvore que pode facilmente passar dos 70 metros de altura.
- AANA e Fundação Almerinda Malaquias: visita às oficinas e às ações sustentáveis da cidade. Uma ótima chance de levar lembrancinhas feitas por quem mora ali.
Dica: leve protetor solar e repelente, e use roupas leves de secagem rápida. Entre um banho de rio e outro, você nunca está completamente seco!
Assim como em Presidente Figueiredo, a vida noturna é quase inexistente. Aproveite a noite para descansar, porque o dia seguinte começa cedo.
Experiência da Selva
Para fechar a viagem, vivi a experiência que eu mais esperava: dormir dentro da floresta. Foram três dias que fortaleceram ainda mais as amizades que fiz ao longo da expedição.
E aqui vai o ponto mais importante de toda essa etapa: na selva, um guia qualificado faz toda a diferença. Foi ele quem nos ensinou e explicou tudo, a cada passo que dávamos. Aprender com quem conhece a floresta enriqueceu muito a experiência e fez dela algo completamente diferente de um simples passeio.
Dia 1: chegada ao Lago do Juma
Saímos do hotel de pick-up, passamos pelo Encontro das Águas e pelo Careiro e, por fim, chegamos à pousada no Lago do Juma.
À tarde, fizemos canoagem e, em seguida, uma caminhada ecológica pela mata. A cada parada, o guia nos mostrava e explicava técnicas de sobrevivência. O que mais me marcou foi descobrir como mascarar o nosso cheiro com elementos da própria floresta.
Há gerações, povos indígenas e comunidades tradicionais da Amazônia usam a formiga tapiba para camuflar o cheiro humano na hora de caçar. É uma espécie de mimetismo químico: o odor forte da formiga cobre o nosso e, de quebra, funciona como repelente natural. Ver na prática que a floresta oferece tudo de que precisamos, para quem sabe onde olhar, é encantador.
E como só se vive uma vez, não senti nojo nenhum ao provar larva e formiga, e me joguei em todas as atividades propostas. Elas estão longe do meu cotidiano, e eu dificilmente teria outra chance de vivê-las. O meu conselho é: se você não vai morrer, vai lá e faz, aproveita. Ou, ao menos, consiga dizer o porquê e do que não gostou.
Quando escureceu, veio a focagem de jacarés. O segredo é ficar em silêncio absoluto e com quase nenhuma luz, para não espantá-los e conseguir atraí-los. O guia fornece todas as instruções e é o responsável por “capturar” um, que, logo após a observação e a explicação, é solto novamente em seu habitat.
Dia 2: sobrevivência e a noite na mata
O dia começou de forma mais tranquila. Como o passeio só sairia depois do almoço, deu para aproveitar melhor a pousada e o rio ao lado dela. E, para a minha surpresa, iríamos pescar, e a pesca do dia seria o nosso único jantar.
Era o dia que eu mais esperava: o do acampamento na mata. Depois de pescar o suficiente (ou quase, porque descobri que piranha praticamente não tem carne), navegamos em silêncio pelo rio, na penumbra, com a luz da lua sobre as nossas cabeças. Veio uma mistura de calmaria e paz.
Seguimos navegando sob as estrelas e o luar, até encontrar um lugar para acampar. Ali, o guia nos ensinou a preparar o peixe, acender a fogueira, grelhá-lo e comer, e também a amarrar as redes em árvores antes de dormir. Todas vinham com mosquiteiro. A pior parte foi acordar de madrugada para ir ao banheiro, num breu terrível e morrendo de medo. Como sou uma camela (quem bebe muita água, sabe como é), tive que ir, mesmo com o cu na mão. (Sim, o banheiro é ao ar livre, em plena natureza.) Mas saí dali ilesa.
Dia 3: a despedida
Voltamos à pousada para tomar café da manhã e, em seguida, fomos acompanhar de perto o processo tradicional de extração do látex (a borracha), que marcou a história econômica da Amazônia. Ali também dá para comprar artesanato local e apoiar quem vive da floresta.
Quanto custa?
Confesso que não anotei os gastos antes de escrever este post, então não tenho a tabela detalhada. Mas, somando tudo, a viagem de 10 dias (contando os dias de ida e volta, que são os do voo) ficou em média R$ 6 mil por pessoa.
- Passagem aérea: cerca de R$ 1.500, ida e volta saindo de São Paulo.
- O restante: hospedagem, agência com os passeios, alimentação e lembrancinhas.
Os valores são de 2024 e variam bastante com a época e a agência. Use como referência e pesquise com antecedência!
É seguro? E os perrengues?
Antes de ir, ouvi muita gente falando de perrengue na Amazônia, mas a minha experiência foi bem diferente:
- Cobras: não vi nenhuma durante a viagem inteira.
- Comida: muita fartura, peixes regionais e comida incrivelmente boa (aqui o meu peixe favorito foi o tambaqui de banda).
- Trilhas: nenhuma foi difícil. Dá para fazer sem ser atleta.
- Segurança: é tudo bem seguro. Os animais perigosos não costumam ficar onde há muita gente, e desde que você esteja com o seu grupo e o guia, é tudo muito tranquilo. (tinha um rapaz do Oriente Médio que queria muito ver uma anaconda, mas ainda bem que não cruzamos com nenhuma)
E para ser justa, um perrengue aconteceu: em Anavilhanas, uma aranha peçonhenta entrou no barco. Mas o guia soube conduzir a situação muito bem e todo mundo saiu ileso. É mais um motivo para nunca ir sem um guia credenciado. (vou deixar o mini vídeo desse perrengue chique logo abaixo)