Se você mora no Brasil, tem condições de viajar pelo mundo e nunca foi ao Amazonas, está perdendo uma das maiores riquezas e belezas que temos. Viajar dentro do Brasil pode sair mais caro do que outros destinos da América Latina, mas te garanto: vale cada centavo.

Por que ir?!

Diferente de outros destinos, aqui há tantas atividades diversas que nenhum dia é igual ao outro: trilhas, cachoeiras, passeio de barco, hidrobike no rio, contato com nativos, animais do próprio bioma, pesca de piranha, banho de lua, acampamento na floresta dormindo em rede. É o roteiro ideal para pessoas hiperativas e amantes da natureza.

Quando ir?

No Amazonas o ano se divide em apenas duas estações, definidas pelo volume de chuvas e pelo nível dos rios: o inverno (época chuvosa) e o verão (época mais seca).

Fui em uma das melhores épocas: junho, na transição do inverno para o verão. Consegui aproveitar todos os passeios sem chuva e, por ser um período que antecede as férias escolares, o número de turistas não foi tão grande.

Em junho também acontece o Festival de Parintins, a maior festa folclórica a céu aberto do mundo. Não fiquei para o festival, mas consegui assistir de graça a alguns dos ensaios abertos ao público. Para quem gosta de festa com muita cor, figurino e coreografia, indico pesquisar mais a respeito, já que as vagas são EXTREMAMENTE CONCORRIDAS.

Apresentação do Festival de Parintins na arena, vista de cima: bonecos gigantes e uma grande alegoria vermelha ao fundo, dançarinos no centro e torcidas de fantasias laranja e vermelhas nas laterais.

Antes de ir

  • Apesar de amar passar horas montando roteiros personalizados, viajar para regiões remotas exige contratar uma agência credenciada. Sem isso, você paga o preço alto de um passeio privativo, abre mão da segurança e perde a melhor parte: fazer novas amizades num lugar tão propício a isso. Pesquise agências, avaliações, tudo!

  • Tome a vacina contra a febre amarela, que é recomendada para quem vai à região amazônica. Ela deve ser tomada pelo menos 10 dias antes da viagem, então não deixe para a última hora;

  • Não vá com mala de rodinhas, invista em um mochilão e uma mochila pequena para os passeios que vão ter ao longo dos dias;

  • Muito repelente e protetor solar;

  • Leve uma blusa ou jaqueta apenas para o voo, pois o ar-condicionado do avião tende a ser forte para pessoas sensíveis ao frio. No destino em si, não vale a pena levar nada de frio;

  • Leve roupa de banho de coloração escura ou estampada, nada de coisas claras, pois a cor do rio pode manchar as suas roupas;

  • Vá com um tênis confortável para fazer trilhas na mata;

  • Não vi necessidade de snacks na mochila, pois todos os almoços são bem servidos;

  • Garrafinha de água para os passeios;

O que fazer em Manaus

Deixe um dia livre para as três paradas que recomendo:

  • Teatro Amazonas: parada obrigatória, de uma beleza que não cabe em palavras. A visitação é gratuita!
  • Mercado Municipal Adolpho Lisboa: o comércio local mais famoso. Confesso que não comprei nada, porque achei todas as lembrancinhas que queria durante os passeios.
  • Museu da Amazônia (MUSA): o único que não consegui ver, por não ter reservado um dia inteiro. Se puder, faça os três.
Interior do Teatro Amazonas, em Manaus: camarotes em ferradura com balaústres dourados, lustre central e teto pintado. Fachada do Mercado Municipal Adolpho Lisboa, em Manaus. Torre de observação do Museu da Amazônia (MUSA), acima das copas da floresta.

O que fazer em Presidente Figueiredo

Presidente Figueiredo é conhecida como a Terra das Cachoeiras, e vale muito a pena reservar 2 dias do roteiro para ela. Além de ampliar a variedade de passeios, serve de aquecimento para o que vem pela frente: para chegar a alguns atrativos, é preciso encarar uma pequena trilha pela mata, um gostinho do que te espera!

Nesses dois dias, conheci:

  • Caverna Refúgio do Maroaga e Gruta da Judéia
  • Cachoeira de Iracema e Cachoeira das Araras
  • Lagoa Paraíso Azul e Lagoa Cristalina
  • Rio Vermelho
Pessoa de biquíni laranja deitada sobre um tronco inclinado à beira de uma lagoa de água azul-turquesa cristalina, cercada de mata fechada.
Silhueta de uma pessoa com o braço erguido dentro de uma caverna de arenito, cuja abertura emoldura a mata verde e se reflete na água.
Pessoa sorrindo em pé na água cor de âmbar, dentro de um cânion de pedra com raios de luz e fios de água caindo de uma fenda no alto.
Queda d’água de águas barrentas e espumantes, ao fundo, em um rio cercado de mata sob um céu de nuvens, com galhos escuros em primeiro plano.
Pessoa de biquíni laranja boiando de braços abertos sobre um tronco, em um igarapé de água transparente cor de chá, vista de cima.
Pessoa com a mão no tronco gigante de uma árvore, olhando para o alto, no meio da floresta fechada.

Dica: antes de encerrar o dia, peça ao guia para parar numa lanchonete que tenha X-caboclinho, lanche regional considerado Patrimônio Cultural Imaterial de Manaus, feito com um ingrediente único da região: a casca de tucumã.

Ao entardecer não há muito o que fazer na cidade. A estrutura de hotéis e restaurantes é bem simples e carece de opções mais elaboradas, mas existe um centrinho noturno com alguns botecos para comer.

O que fazer em Novo Airão

Novo Airão é a porta de entrada para o Arquipélago de Anavilhanas, o maior arquipélago fluvial do mundo, em pleno Rio Negro. Aqui o ritmo muda: a cidade é pequena e o passeio acontece quase todo na água. Fiquei 2 dias, e recomendo o mesmo: um só passaria correndo.

Primeiro dia: no caminho, a van fez uma parada na Vila de Paricatuba, com um pedacinho da história da região que vale a pausa. Depois:

  • Botos-cor-de-rosa: a observação é feita bem de perto, seguida de um almoço regional com o famoso tambaqui de banda.
  • Comunidade ribeirinha: visita para entender o turismo de base comunitária, como é feito o artesanato e alguns instrumentos de caça que usavam, como a zarabatana.
  • Anavilhanas: navegação pelo labirinto de igapós e lagos, fechando com um banho no Rio Negro ao pôr do sol.

Segundo dia:

  • Nascer do sol no Rio Negro: pedalar numa hidrobike enquanto o sol nasce;
  • Canoagem e trilha na floresta primária: passeio de barco pelos igapós e, depois, uma pequena trilha até encontrar a majestosa Sumaúma, uma árvore que pode facilmente passar dos 70 metros de altura.
  • AANA e Fundação Almerinda Malaquias: visita às oficinas e às ações sustentáveis da cidade. Uma ótima chance de levar lembrancinhas feitas por quem mora ali.

Dica: leve protetor solar e repelente, e use roupas leves de secagem rápida. Entre um banho de rio e outro, você nunca está completamente seco!

Assim como em Presidente Figueiredo, a vida noturna é quase inexistente. Aproveite a noite para descansar, porque o dia seguinte começa cedo.

Ruínas de um antigo casarão de pedra com arcos, tomado por musgo e vegetação, com árvores crescendo no topo e um caminho de lajes ao lado.
Pessoa sorrindo, sentada na beira de um deck de madeira, ao lado de um boto-cor-de-rosa que ergue a cabeça para fora da água.
Peixe grelhado inteiro servido sobre folha de bananeira, coberto de rodelas de tomate e com limões ao redor, em uma mesa de madeira de restaurante regional.
Tapete trançado de estampa geométrica em vermelho e bege no chão, com uma vara vermelha atravessada sobre ele.
Homem de camisa azul segurando uma cumbuca e explicando a três visitantes, sob uma cobertura de palha com fogueira acesa no chão de terra e uma rede ao fundo.
Pessoa sorrindo, com pintura no rosto, sentada de pernas cruzadas na proa de um barco, entre árvores alagadas do igapó.

Experiência da Selva

Para fechar a viagem, vivi a experiência que eu mais esperava: dormir dentro da floresta. Foram três dias que fortaleceram ainda mais as amizades que fiz ao longo da expedição.

E aqui vai o ponto mais importante de toda essa etapa: na selva, um guia qualificado faz toda a diferença. Foi ele quem nos ensinou e explicou tudo, a cada passo que dávamos. Aprender com quem conhece a floresta enriqueceu muito a experiência e fez dela algo completamente diferente de um simples passeio.

Dia 1: chegada ao Lago do Juma

Saímos do hotel de pick-up, passamos pelo Encontro das Águas e pelo Careiro e, por fim, chegamos à pousada no Lago do Juma.

À tarde, fizemos canoagem e, em seguida, uma caminhada ecológica pela mata. A cada parada, o guia nos mostrava e explicava técnicas de sobrevivência. O que mais me marcou foi descobrir como mascarar o nosso cheiro com elementos da própria floresta.

Há gerações, povos indígenas e comunidades tradicionais da Amazônia usam a formiga tapiba para camuflar o cheiro humano na hora de caçar. É uma espécie de mimetismo químico: o odor forte da formiga cobre o nosso e, de quebra, funciona como repelente natural. Ver na prática que a floresta oferece tudo de que precisamos, para quem sabe onde olhar, é encantador.

E como só se vive uma vez, não senti nojo nenhum ao provar larva e formiga, e me joguei em todas as atividades propostas. Elas estão longe do meu cotidiano, e eu dificilmente teria outra chance de vivê-las. O meu conselho é: se você não vai morrer, vai lá e faz, aproveita. Ou, ao menos, consiga dizer o porquê e do que não gostou.

Quando escureceu, veio a focagem de jacarés. O segredo é ficar em silêncio absoluto e com quase nenhuma luz, para não espantá-los e conseguir atraí-los. O guia fornece todas as instruções e é o responsável por “capturar” um, que, logo após a observação e a explicação, é solto novamente em seu habitat.

Dia 2: sobrevivência e a noite na mata

O dia começou de forma mais tranquila. Como o passeio só sairia depois do almoço, deu para aproveitar melhor a pousada e o rio ao lado dela. E, para a minha surpresa, iríamos pescar, e a pesca do dia seria o nosso único jantar.

Era o dia que eu mais esperava: o do acampamento na mata. Depois de pescar o suficiente (ou quase, porque descobri que piranha praticamente não tem carne), navegamos em silêncio pelo rio, na penumbra, com a luz da lua sobre as nossas cabeças. Veio uma mistura de calmaria e paz.

Seguimos navegando sob as estrelas e o luar, até encontrar um lugar para acampar. Ali, o guia nos ensinou a preparar o peixe, acender a fogueira, grelhá-lo e comer, e também a amarrar as redes em árvores antes de dormir. Todas vinham com mosquiteiro. A pior parte foi acordar de madrugada para ir ao banheiro, num breu terrível e morrendo de medo. Como sou uma camela (quem bebe muita água, sabe como é), tive que ir, mesmo com o cu na mão. (Sim, o banheiro é ao ar livre, em plena natureza.) Mas saí dali ilesa.

Dia 3: a despedida

Voltamos à pousada para tomar café da manhã e, em seguida, fomos acompanhar de perto o processo tradicional de extração do látex (a borracha), que marcou a história econômica da Amazônia. Ali também dá para comprar artesanato local e apoiar quem vive da floresta.

Passarela de madeira entre chalés de palha e madeira da pousada, ao entardecer, com árvores à esquerda e o céu em tons de azul e dourado.
Homem de camisa azul segurando um filhote de jacaré nas mãos, à noite, iluminado por uma lanterna dentro de um barco.
Pessoa de chapéu em pé em uma canoa, com o braço erguido, entre árvores alagadas do igapó e outros passageiros ao fundo.
Silhuetas de duas pessoas na proa de um barco, olhando o céu ao entardecer, sobre um lago calmo com a margem de floresta ao fundo.
Peixes grelhados da pesca do dia dispostos sobre folhas de bananeira, com limão, iluminados por velas.

Quanto custa?

Confesso que não anotei os gastos antes de escrever este post, então não tenho a tabela detalhada. Mas, somando tudo, a viagem de 10 dias (contando os dias de ida e volta, que são os do voo) ficou em média R$ 6 mil por pessoa.

  • Passagem aérea: cerca de R$ 1.500, ida e volta saindo de São Paulo.
  • O restante: hospedagem, agência com os passeios, alimentação e lembrancinhas.

Os valores são de 2024 e variam bastante com a época e a agência. Use como referência e pesquise com antecedência!

É seguro? E os perrengues?

Antes de ir, ouvi muita gente falando de perrengue na Amazônia, mas a minha experiência foi bem diferente:

  • Cobras: não vi nenhuma durante a viagem inteira.
  • Comida: muita fartura, peixes regionais e comida incrivelmente boa (aqui o meu peixe favorito foi o tambaqui de banda).
  • Trilhas: nenhuma foi difícil. Dá para fazer sem ser atleta.
  • Segurança: é tudo bem seguro. Os animais perigosos não costumam ficar onde há muita gente, e desde que você esteja com o seu grupo e o guia, é tudo muito tranquilo. (tinha um rapaz do Oriente Médio que queria muito ver uma anaconda, mas ainda bem que não cruzamos com nenhuma)

E para ser justa, um perrengue aconteceu: em Anavilhanas, uma aranha peçonhenta entrou no barco. Mas o guia soube conduzir a situação muito bem e todo mundo saiu ileso. É mais um motivo para nunca ir sem um guia credenciado. (vou deixar o mini vídeo desse perrengue chique logo abaixo)